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Do silêncio ao acolhimento: como Manuela Bueno transformou a própria história em referência no cuidado ao autismo

Do silêncio ao acolhimento: como Manuela Bueno transformou a própria história em referência no cuidado ao autismo

Existem histórias que parecem desenhadas para explicar, na prática, o sentido da palavra vocação. A trajetória da psicóloga Manuela Bueno é uma delas. Em uma profissão onde ouvir é, muitas vezes, mais importante do que falar. Ela iniciou sua própria jornada no silêncio. Diagnosticada tardiamente dentro do fenótipo ampliado do autismo, viveu na infância as angústias do mutismo seletivo, a ponto de uma professora chamar sua mãe acreditando que a menina não falava. O que poderia ter sido apenas uma memória difícil se transformou, anos depois, na base de uma carreira marcada pela escuta qualificada, pela empatia e pelo compromisso com o cuidado humano.

Hoje, com 25 anos de formada, especialista em Neuropsicologia e referência no atendimento à pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), Manu, como é carinhosamente conhecida, construiu um caminho que integra ciência, experiência prática e sensibilidade clínica. Mais do que técnica, sua atuação carrega a marca de quem compreende, por dentro, os desafios do desenvolvimento neurodivergente e das dinâmicas familiares que orbitam esse universo.

 

 

Quando a vida escolhe antes da gente perceber

 

A decisão pela Psicologia, conta ela, aconteceu ainda na adolescência, quase como um gesto impulsivo. Aos 16 anos, no momento da inscrição para o vestibular, a escolha surgiu sem planejamento ou grandes reflexões. “Na hora da inscrição, eu falei: vai, psicologia, vamos ver o que que vira isso”, lembra, entre risos, recordando também o ceticismo inicial do pai diante da profissão.

 

Quando a maternidade se transforma em ciência aplicada

 

Se a Psicologia surgiu como um chamado silencioso, a Neuropsicologia veio com intensidade e urgência. O nascimento da filha Beatriz marcou um divisor de águas. Diagnosticada com Síndrome de West, uma forma grave de epilepsia, a menina recebeu um prognóstico inicial considerado desafiador. A reação foi imediata: estudar, entender e buscar respostas. “Eu falei: não, eu não aceito isso”, relembra.

A busca pelo conhecimento deixou de ser apenas acadêmica e passou a ser profundamente pessoal. O resultado desse mergulho foi uma expertise construída não apenas em livros, mas na prática diária do cuidado, da reabilitação e da observação clínica. Hoje, Beatriz desafia previsões iniciais. Anda, fala, corre, interage, constrói sua própria história — e cada conquista reforça a convicção de que informação e intervenção fazem diferença real.

 

Autismo: entre o avanço dos diagnósticos e o avanço do conhecimento

 

Na prática clínica, Manu acompanha de perto o crescimento do número de diagnósticos de TEA. Para ela, esse aumento não pode ser explicado por um único fator. Existe maior incidência, especialmente relacionada aos avanços da medicina neonatal, que permitem a sobrevivência de mais bebês prematuros, grupo que apresenta maior risco para o transtorno. Ao mesmo tempo, há ferramentas mais sensíveis de avaliação e profissionais mais preparados para identificar sinais que antes passavam despercebidos.

 

 

Nesse cenário, a avaliação neuropsicológica assume papel decisivo, principalmente nos casos de autismo nível 1, que podem ser confundidos com outros transtornos. “O autismo nível 1 exige uma avaliação muito detalhada. É a avaliação neuropsicológica que faz o diagnóstico diferencial”, explica.

 

O valor da observação e da intervenção precoce

 

Entre pais e familiares, a principal orientação é observar, sem pânico, mas com atenção. Pequenos sinais podem surgir antes dos dois anos de idade, como dificuldade de contato visual durante a amamentação, ausência de gestos comunicativos entre 8 e 12 meses, pouca imitação ou ausência de brincadeiras compartilhadas.

Esses sinais não significam diagnóstico imediato, mas indicam a necessidade de avaliação especializada. Confirmado o diagnóstico, iniciar intervenção o quanto antes amplia significativamente as possibilidades de desenvolvimento funcional. “Quanto antes você começa a intervenção, maior a chance de um prognóstico melhor e de funcionalidade lá na frente”, afirma.

 

Desmistificar para acolher

 

Parte importante do trabalho da profissional é combater ideias equivocadas sobre o autismo. Uma delas é a noção de que todo autista possui habilidades extraordinárias. Na realidade, apenas cerca de 20% apresentam inteligência média ou acima da média, enquanto a maioria possui algum grau de deficiência intelectual.

 

Inclusão: entre a teoria e a realidade

 

Quando o assunto é inclusão escolar, a psicóloga é direta. Para ela, ainda existe uma distância significativa entre a inclusão ideal e o que acontece na prática. Matricular não significa incluir. É necessário planejamento individualizado, capacitação de profissionais e respeito às necessidades reais de cada criança. “Entre o que a gente tem hoje e o que é inclusão de fato, nós temos um abismo gigantesco”, pontua.

 

Pilares do processo terapêutico

 

A profissional detalha pilares que considera essenciais no processo terapêutico: construção de planos de intervenção personalizados, aproveitamento da plasticidade cerebral na primeira infância e estratégias para auxiliar na autorregulação emocional e no manejo das crises sensoriais.

“Cada criança é um universo. O que funciona para uma pode não funcionar para outra”, reforça, lembrando que o espectro autista é, por definição, amplo e diverso. Dentro dos níveis de suporte 1, 2 e 3, as variações são significativas.

Manuela também diferencia intervenção e acompanhamento. A análise do comportamento aplicada (ABA) é uma ferramenta de intervenção pontual, não um fim em si mesma. “Cumpriu o papel de resolver o que o autismo estava interferindo no comportamento, você não aplica mais. A criança tem alta da intervenção e passa a fazer acompanhamento psicológico.”

 

O impacto de começar cedo

 

As consequências práticas são expressivas. “Se você começa a intervenção com apenas seis meses de atraso em relação aos marcos esperados, a chance de, aos quatro ou cinco anos, a criança já estar equiparada aos pares típicos é enorme. Agora, se você deixa acumular atrasos, fica muito mais difícil reverter.”

Nem todo mundo será médico, mas todos podem evoluir

Manu cita um exemplo que circulou nas redes sociais: um jovem de Rondonópolis, diagnosticado com autismo nível 2 na infância, que com intervenção adequada passou para nível 1 e hoje é médico neurologista. Mas faz questão de ponderar: “Não podemos romantizar o autismo. Nem todo autista vai conseguir isso. Mas a intervenção precoce melhora muito a qualidade de vida e a autonomia.”

Segundo ela, não há garantias sobre o futuro de nenhuma criança. “Não é diferente com o autista. O importante é dar a melhor base possível.”

 

A terapia como ensino personalizado

 

O papel do terapeuta é ensinar a criança a reconhecer seus estados internos e utilizar ferramentas que funcionem para seu próprio sistema nervoso. “A gente vai intervir naquilo que desregula, ajudando a criança a se regular da maneira que é possível para ela.”

O diagnóstico como mapa, não como sentença

Uma das mensagens mais marcantes de sua atuação é direcionada às famílias. Para ela, o diagnóstico não representa uma sentença, mas uma ferramenta. “O diagnóstico não é o fim do caminho. Ele é o início de uma nova jornada. É um mapa.”

Saber o nome permite construir estratégias, planejar intervenções e desenvolver autonomia de forma estruturada. “O medo do futuro é de todos os pais. Mas o diagnóstico é um mapa. Use-o.”

 

Reconhecimento que ultrapassa consultórios

 

 

Coautora do livro Autismo: Uma Jornada de Conscientização, que se tornou best-seller e figurou entre os mais vendidos da Revista Veja, Manuela também apresenta o quadro “Autismo em Foco” na TV e foi premiada nacionalmente como uma das “Estrelas da Saúde” em cerimônia realizada no Palácio do Planalto.

De uma infância marcada pelo silêncio a uma atuação que hoje ecoa em consultórios, famílias e espaços de formação, Manuela construiu uma trajetória que mostra como experiências individuais podem se transformar em conhecimento coletivo e impacto social, e como, muitas vezes, são exatamente as diferenças que se tornam as maiores contribuições para o mundo.

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