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Atividade física faz mal ao coração? Há risco de morte súbita em atletas?

Como se proteger?

 

A imagem é conhecida: um atleta, jovem, saudável, em plena forma física, de repente cai no chão durante uma partida de futebol ou uma corrida. A cena choca, assusta e levantadúvidas: a atividade física pode causar morte súbita? Se o exercício é considerado uma das melhores formas de prevenir doenças do coração, como é possível que ele também seja, em raros casos, o gatilho para tragédias tão impactantes?

 

Artigo:

Por Dr. Ricardo Carneiro
Amarante, M.D., PhD.
CRM-SP 147.545
RQE: 62746| 62747 | 627471 | 627472
CRM/MT 15502
RQE: 7713/7714 / 7715
MEDICO CARDIOLOGISTA ESPECIALISTA                             EM ARRITMIAS E MARCAPASSOS

Neste artigo, a proposta é explorar esse paradoxo de forma clara e acessível: como o exercício pode proteger e, em algumas situações, ameaçar o coração.

  • Atividade física: vilã ou heroína da saúde cardiovascular?


A atividade física é, sim, extremamente benéfica para o coração. Praticar exercícios regularmente ajuda a reduzir a pressão arterial, melhora o controle do colesterol e do açúcar no sangue, combate a obesidade, reduz o estresse e fortalece o músculo cardíaco. Diversos estudos já comprovaram que pessoas fisicamente ativas têm menor risco de sofrer infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular encefálico (AVC).

 



No entanto, como toda “medicação”, o exercício precisa ser bem dosado e, sobretudo, acompanhado de conhecimento e preparo. É aqui que entramos em um território que merece atenção: o risco de morte súbita relacionada ao exercício intenso ou competitivo.

 

  • O que é a morte súbita?

 

A morte súbita cardíaca é definida como uma parada cardíaca inesperada, geralmente causada por arritmias malignas, que ocorre em até uma hora após o início dos sintomas, em uma pessoa aparentemente saudável. O coração simplesmente para de bater de forma eficaz, e, sem atendimento rápido, a chance de sobrevivência é muito pequena.

Embora a imagem mais marcante seja a de atletas profissionais caindo em campo, a morte súbita pode acontecer também com praticantes de academia, corredores de fim de semana ou qualquer pessoa envolvida em atividade física extenuante. Mas é preciso colocar as coisas em perspectiva.

 

  • Qual é o risco real?

 

De maneira geral, a morte súbita relacionada ao exercício é extremamente rara. Estima-se que a incidência seja de 1 a 2 casos para cada 100 mil praticantes por ano. Entre atletas profissionais, esse número pode ser um pouco maior, justamente pelo volume e intensidade dos treinos, mas ainda é muito baixo.

Ou seja: o benefício de se exercitar supera, e muito, os riscos potenciais.

Por que ela acontece? O que leva um coração saudável a parar subitamente durante o exercício?
Na maioria dos casos, não estamos diante de um coração completamente saudável. A morte súbita, nesses contextos, costuma revelar a presença de uma condição cardíaca pré-existente, muitas vezes silenciosa.

– Em jovens (menores de 35 anos): as causas mais comuns são doenças genéticas, como a cardiomiopatia hipertrófica, a displasia arritmogênica do ventrículo direito e as chamadas anormalidades congênitas das artérias coronárias. Essas condições podem passar despercebidas por anos e só se manifestarem em momentos de esforço intenso.

 

– Em pessoas acima de 35 anos: a principal causa passa a ser a doença arterial coronariana  ou seja, infarto provocado por obstrução nas artérias do coração, que pode gerar arritmias fatais durante o esforço físico.


O exercício “desencadeia” o problema, mas não é o vilão. É importante entender que a atividade física, nesses casos, atua como um gatilho, e não como a causa primária da morte súbita. O coração já está em risco, o exercício apenas acelera o processo.

 

  • Como se proteger?

 

O papel da avaliação pré-participação. Diante disso, a principal ferramenta para reduzir esse risco é a avaliação médica antes de iniciar atividades físicasespecialmente, se forem intensas ou competitivas. Esse check-up, que chamamos de avaliação pré-participação, pode incluir:

– Anamnese detalhada: investigação de sintomas (como dor no peito, palpitações ou desmaios) e histórico familiar (casos de morte súbita ou doenças cardíacas precoces).
– Exame físico.
– Eletrocardiograma (ECG).
– Exames complementares (como ecocardiograma ou teste de esforço), se houver suspeitas.

Em alguns casos, é indicado um acompanhamento com cardiologista especializado em eletrofisiologia ou cardiologia do esporte.

Sinais de alerta: quando procurar um médico antes de treinar
Alguns sintomas ou antecedentes merecem atenção redobrada:


– Dor no peito durante ou após o exercício.
– Falta de ar desproporcional ao esforço.
– Palpitações fortes ou batimentos irregulares.
– Episódios de desmaio ou quase desmaio durante a prática esportiva.
– Histórico familiar de morte súbita em pessoas jovens.

Se você apresenta qualquer um desses sinais, não é hora de evitar o exercício, mas sim, é hora de fazê-lo com segurança e orientação.

 

  • E o atleta que teve um episódio de morte súbita e sobreviveu?


Há casos em que atletas sofrem uma parada cardíaca e são salvos por reanimação imediata com desfibrilador, como já vimos em transmissões ao vivo. Esses sobreviventes precisam de investigação minuciosa, pois as chances de um novo episódio são consideráveis. Muitas vezes, o retorno ao esporte só ocorre com restrições ou uso de marcapasso/desfibrilador implantável (CDI).

 

  • O papel dos desfibriladores em locais públicos

 

Outro ponto importante é a presença de desfibriladores automáticos (DEA) em academias, estádios, clubes, escolas e locais de grande circulação. A reanimação precoce com uso do DEA pode salvar vidas em até 70% dos casos, se realizada nos primeiros minutos após a parada cardíaca.

 


 

É por isso que a legislação já exige a presença desses aparelhos em vários ambientes no Brasil. E todos nós deveríamos aprender a usá-los é simples, seguro e pode fazer toda a diferença.

A morte súbita associada ao exercício, embora trágica, é rara e, na maioria dos casos, evitável. A mensagem principal não é ter medo da atividade física, pelo contrário: ela continua sendo um dos pilares da longevidade e da saúde cardiovascular.

Mas praticá-la com consciência, conhecimento e acompanhamento médico é a chave para que os benefícios superem qualquer risco.


Então, se você está pensando em começar a se exercitar, não hesite. Procure um médico, faça sua avaliação e mova-se com segurança, com prazer e com saúde.

Você sabia? Curiosidades sobre morte súbita e atividade física

 

Pessoas que praticam exercícios intensos por muitos anos desenvolvem o chamado “coração do atleta” um coração maior, com paredes mais espessas e batimentos mais lentos. Isso é uma adaptação normal, mas pode confundir exames se não for avaliado por um especialista.

Desmaio durante o exercício nunca é normal. Se você ou alguém próximo desmaia enquanto pratica atividade física, procure um médico imediatamente. Pode ser um sinal de alerta importante.

 

  • Morte súbita em jovens geralmente tem causa genética.


Doenças hereditárias como cardiomiopatia hipertrófica ou síndrome do QT longo podem passar despercebidas e só se manifestar durante o esforço físico. Por isso, é importante conhecer o histórico familiar.

 

  • Os primeiros 3 minutos salvam vidas.

 

Em casos de parada cardíaca, cada minuto sem reanimação reduz as chances de sobrevivência em cerca de 10%. Desfibriladores automáticos (DEA) são fáceis de usar e devem estar acessíveis em locais com prática esportiva.

 

 

Atividade física reduz em até 35% o risco de morte por doenças cardíacas. Mesmo caminhadas regulares já trazem enormes benefícios. O segredo está na regularidade e no acompanhamento adequado.

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